Miss Brasil marca gol no campo da representatividade; candidata do Piauí é eleita para brilhar; entenda

racismo

Foto: Reprodução/Internet

Ainda é impressionante como as discussões sobre etnias no Brasil são niveladas por baixo. Muito baixo. Com o passar dos anos, as pessoas no país continuam a reafirmar o fato de que este não é um país bem resolvido com sua miscigenação. Não bastasse isso, a hipocrisia é uma espécie de paliativo para uma convivência sem grandes conflitos. Mas quando aquele que pertence a um grupo oprimido se destaca, o Brasil real se revela.

Na noite de sábado (20), foi realizado o concurso Miss Brasil Universo, que escolheu Monalysa Alcântara para representar o país no Miss Universo 2017, em novembro. Até aqui, tudo bem. A competição tem credibilidade e é realizada pela Band há anos.

Porém, Monalysa, que se apresenta como negra, sofreu, nas mídias sociais, um enxurrada de críticas ligadas diretamente aos seus traços físicos, cabelos encaracolados e cor da pele.

Foto da comemoração:

Realizei um sonho, e sonhei pelo meu Piauí ❤️👑

A post shared by Monalysa Alcântara (@monalysaalcantara) on

É importante deixar claro que não há problema em opinar sobre candidatas em um concurso de beleza, afinal, elas estão ali para passar por uma análise física, a partir de um subjetivo/opressor padrão de beleza.

Primeiro, o destaque negativo é para a quantidade de críticas realmente cruéis. E eu não estou falando somente de defini-la como “feia”, dizer que “vai a passeio no Miss Universo” ou que foi coroada com base em “cotas’ , como ocorreu bastante. Quem são essas pessoas tão especializadas em concursos de beleza? Quem são elas na vida?

Talvez, uma explicação é o fato dessa perversidade implícita nas críticas estar mais intrínseca ao que somos enquanto país. Há racismo no Brasil e ele se manifesta de diversas maneiras. Uma das mais violentas é mexer com o emocional de quem está em evidência, de quem obteve uma vitória que jamais poderá ser sua.

Essa é uma herança do período escravagista do nosso país. Uma lógica de raciocínio absurda, porém, culturalizada. Oprimidos não podem se levantar porque o opressor se sente ameaçado. A maneira mais imediatista de tentar reverter isso é massacrar, destilar venenosas opiniões nas mídias sociais como protesto contra a eleição pela segunda vez consecutiva de uma mulher fora do padrão pele branca, cabelos escuros ou pela branca, cabelos loiros.

⇒ Entenda como conteúdo original e cobertura qualificada transformaram Al Jazeera English em uma potência global

A maior parte da população não está acostumada a ver pessoas de pele negra em posições de destaque. E mesmo quem é negro, como Monalysa, pode sentir um estranhamento, porque existe um sério problema de representatividade no Brasil. Quantos comerciais são estrelados por negros? Quantos programas de televisão têm negros no comando? É incomum demais quando aparece um que contrária esse padrão.

Monalysa, por exemplo, tem só 18 anos de idade. É uma menina ainda, e já carrega uma história das mais interessantes. É de família simples, passou apertos e isso a fez uma pessoa melhor, que compreende de onde veio e qual é o seu papel. Esse background seria motivo suficiente para gerar empatia, orgulho na maior parte das pessoas. Não, aqui, no Brasil.

As mesmas pessoas que clamam por um país melhor ressignificam termos e tornam mais sofisticado seu preconceito velado. “Vitimismo” é uma das palavras mais mencionadas. Ora! Não se pode mais contar uma história de vida bonita, de batalha, que parte dos brasileiros aponta como se o próprio quisesse levar vantagem. Onde está a empatia?

Ao invés de apoiar a candidata eleita, alguns preferem um discurso apático e rancoroso. Não se colocam uma vez sequer no lugar dela. Confundem falta de educação com opinião. E, reforço, destilam seu racismo velado. Dois concursos para trás, e pouca gente reclamava que o padrão era pele branca e cabelo liso. Agora, para os revoltados online, a meta é acabar com a “ditadura dos cachos”.

⇒ Seis casais gays masculinos de novelas estrangeiras que emocionam o público na internet

Ora, minha gente, não existe opressão contra quem historicamente, financeiramente, midiaticamente é opressor. Uma miss Brasil negra em uma indústria do entretenimento completamente voltada para o padrão europeu é muito pouco ainda, apesar de significativo para quem não vê representatividade nesses setores.

Essa consecutividade no Miss Brasil mostra que, sim, as coisas podem ser diferentes, que o mundo está se transformando. A eleição da candidata piauiense tem muita importância para quem verdadeiramente acredita que um país com diversidade e representatividade pode ser muito melhor. É uma tremenda força para desinstitucionalizar o terrível racismo no país.

E não importa se Monalysa não se classificar no Miss Universo. Ela é nossa representante e como brasileiros é um dever apoiá-la. Monalysa foi eleita para o Brasil, em primeiro lugar. E ela precisa cumprir seus compromissos com o nosso povo, principalmente, com a população negra. Se a coroa do Miss Universo vier, é lucro. Já está fazendo muito ao enfrentar os racistas.

O que ficará para as garotas pobres do interior do país é a esperança. Talvez já começou um processo natural de respeito e justiça à multiculturalidade, aqui, no Brasil. Eu espero que sim, afinal, já é 2017, passou da hora. E essas meninas – tão sonhadoras quanto a nova Miss Brasil – estão enxergando em Raíssa Santana e na própria Monalysa possibilidades de um futuro mais inclusivo. Elas poderão ser quem elas quiserem porque se sentirão motivadas a buscar o sonho. Isso é valioso demais.

Anúncios
Nota | Esse post foi publicado em ESPECIAL, POLÍTICA e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s